Avaliação de Desempenho do CEO e da Diretoria
- Clilson Filippetti

- 3 days ago
- 15 min read

Um dos papéis mais críticos do conselho de administração ou consultivo é a avaliação formal do CEO e da diretoria executiva na era da governança moderna que deixou de ser um conjunto de regras burocráticas para se tornar sistema imunológico das organizações.
No centro desse sistema, o conselho (de administração e/ou consultivo) desempenha um papel que transcende a simples fiscalização de balanços ou a aprovação de orçamentos anuais. Sua responsabilidade mais crítica, e talvez a mais sensível, reside na avaliação formal do CEO e da diretoria executiva. Este processo não deve ser encarado como um tribunal de julgamento, mas sim como um instrumento estratégico de alinhamento, desenvolvimento e, acima de tudo, de garantia da perenidade da empresa.
A avaliação do principal executivo de uma organização, é o momento em que a visão de longo prazo dos acionistas se encontra com a execução tática do dia a dia. É o fiel da balança que determina se a cultura organizacional está sendo fortalecida ou corroída, se os riscos estão sendo mitigados ou ignorados e se a estratégia aprovada pelo colegiado está, de fato, saindo do papel com a integridade necessária. Em um mundo marcado pela volatilidade e por exigências crescentes de transparência, um conselho que não avalia seu CEO de forma profissional e humanizada está, na prática, abdicando de sua função fiduciária.
Neste artigo trago uma reflexão profunda sobre como estruturar esse processo de forma fluida, técnica e, ao mesmo tempo, sensível às nuances do comportamento humano.
Explorarei marcos conceituais de autores renomados (alguns deles tiveram um papel importante na minha formação), as recomendações de entidades de referência como o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) e o Centro de Estudos em Liderança e Governança (CELINT), e traremos exemplos práticos do varejo nacional — um setor que, pela sua dinâmica e exposição, oferece lições valiosas sobre os acertos e erros na condução da liderança executiva.
A confiança como base da liderança
O conceito de liderança do líder, amplamente defendido por Wanderlei Passarella em sua obra Conselheiro de Empresas, resume com precisão a essência da relação entre o conselho e o CEO. O conselho não deve atuar como um "chefe" tradicional, mas como um grupo de pressão positiva e de confronto respeitoso”. Essa distinção é fundamental enquanto o chefe cobra tarefas, o conselho orienta propósitos e avalia competências. A função fiduciária (gestão de interesses de terceiros) do conselheiro exige que ele garanta que a empresa esteja sob o comando de pessoas tecnicamente capazes, eticamente íntegras e emocionalmente resilientes.
A relação de confiança entre sócios, acionistas e gestores é o alicerce sobre o qual se constrói a avaliação. No entanto, essa confiança não pode ser cega. Como bem observa Carlos Alberto Julio, o conselho deve agir como um "parceiro crítico". Isso significa oferecer o suporte necessário para que o CEO navegue em mares turbulentos, mas também ter a coragem de apontar desvios de rota antes que eles se tornem catastróficos. A transição do modelo arcaico de "comando e controle" para um modelo de "orientação e suporte" é o que diferencia os conselhos de alta performance.
Nesse contexto, a avaliação formal deixa de ser uma "conversa anual" para se tornar um ritual institucionalizado. Ela deve ser baseada em critérios conhecidos de antemão, evitando surpresas que possam minar a moral da diretoria. Quando o processo é bem estruturado, o CEO sente-se amparado por um colegiado que compreende os desafios da operação, mas que mantém o olhar fixo no horizonte estratégico. É essa dualidade — o apoio humano e a exigência profissional — que cria um ambiente de alta entrega e baixo risco reputacional.
Metodologia e critérios além dos números
Um dos erros mais comuns e prejudiciais na avaliação de executivos é o foco excessivo em indicadores financeiros de curto prazo. Embora o lucro, o EBITDA e o ROIC (retorno sobre o capital investido) sejam fundamentais, eles contam apenas uma parte da história — geralmente a parte que já passou. Para uma avaliação que olhe para o futuro, o conselho deve equilibrar metas financeiras com indicadores estratégicos e comportamentais.
A definição de metas deve ocorrer no início do exercício social, de forma clara e mensurável. O IBGC recomenda que o conselho, muitas vezes apoiado por um Comitê de Gente & Gestão ou de Remuneração, estabeleça um plano de performance do CEO.
Este plano deve incluir:
Categoria de Indicador | Exemplos de Metas | Impacto na Organização |
Financeiro | Receita líquida, Margem EBITDA, Fluxo de Caixa Livre | Sustentabilidade econômica e retorno ao acionista. |
Estratégico | Expansão de mercado, Digitalização, Inovação de produtos | Posicionamento competitivo e crescimento futuro. |
Operacional | Eficiência logística, Redução de custos, Qualidade do serviço | Otimização de recursos e satisfação do cliente. |
Capital Humano | Clima organizacional, Retenção de talentos, Sucessão | Fortalecimento da cultura e continuidade da gestão. |
Governança e ESG | Índice de conformidade, Metas de diversidade, Redução de emissões | Reputação, mitigação de riscos e valor de longo prazo. |
Wanderlei Passarella reforça a importância de uma "matriz de competências" para o CEO. Esta matriz deve avaliar habilidades como a tomada de decisão em cenários de alta incerteza, a capacidade de desenvolver a próxima geração de líderes e a gestão de conflitos, especialmente em empresas familiares onde as fronteiras entre propriedade e gestão podem ser tênues.
Ao utilizar critérios objetivos, o conselho protege o processo contra vieses cognitivos perigosos, como o "efeito halo" (quando a admiração por uma característica do CEO cega o conselheiro para suas falhas) ou o "efeito recência" (quando o desempenho excelente ou pífio do último mês apaga o histórico de todo o ano).
A objetividade não exclui a humanidade. Pelo contrário, uma avaliação baseada em dados e fatos é muito mais respeitosa com o profissional do que uma crítica baseada em percepções vagas ou humores momentâneos. O uso de consultorias externas pode ser um diferencial importante nesse estágio, trazendo uma visão imparcial e metodologias de mercado que conferem ainda mais credibilidade ao processo.
A agenda ESG e a cultura de governança
A partir de 2024 e com projeções ainda mais fortes para 2026, a integração de metas ESG (Ambiental, Social e Governança) na avaliação e remuneração da diretoria executiva deixou de ser uma tendência para se tornar uma exigência de mercado. Investidores institucionais e agências de rating monitoram de perto como os incentivos dos executivos estão alinhados à sustentabilidade do negócio.
Sandra Guerra, uma das maiores autoridades em governança no Brasil, observa que o impacto da liderança sobre a cultura organizacional é um dos ativos mais valiosos — e menos avaliados — de uma empresa. Um CEO pode entregar resultados financeiros excepcionais no curto prazo, mas se o fizer ao custo de uma cultura tóxica ou de práticas ambientais negligentes, ele estará destruindo valor para o futuro.
Portanto, a avaliação deve incorporar perguntas fundamentais: "O CEO está promovendo uma cultura de transparência?", "Como ele reage a falhas éticas na sua equipe?", "As metas de diversidade e inclusão estão sendo tratadas como prioridade estratégica ou apenas como marketing?".
A inclusão de indicadores de ESG na remuneração variável é uma ferramenta poderosa de mudança de comportamento. Quando parte do bônus do CEO está vinculada à redução da pegada de carbono ou ao aumento da representatividade feminina na liderança, esses temas deixam de ser "projetos paralelos" e passam a integrar a estratégia central da companhia. Isso demonstra um conselho maduro, que compreende que a perenidade da marca depende da sua licença social para operar.
Exemplos práticos no varejo nacional
O varejo brasileiro, em especial o setor supermercadista, é um laboratório vivo de governança. Pela sua natureza de margens apertadas e alta dependência de capital humano e logística, a qualidade da diretoria executiva é testada diariamente.
GPA (Grupo Pão de Açúcar): A evolução da governança
O GPA é um exemplo clássico de como a governança e a avaliação da diretoria evoluíram ao longo das décadas. Após períodos de intensas disputas societárias e mudanças no controle, a companhia estruturou processos robustos de avaliação. Em seus relatórios de referência mais recentes, o GPA destaca a vinculação da remuneração variável de seus executivos a metas claras de sustentabilidade e eficiência operacional.
O conselho atua de forma a garantir que a transição para modelos de negócio mais ágeis, como o foco no “atacarejo” e na digitalização, seja acompanhada por uma liderança que domine essas novas competências. A avaliação aqui serve como um norteador para o plano de sucessão, garantindo que o perfil do CEO esteja sempre alinhado ao momento estratégico da empresa.
Carrefour Brasil: Metas climáticas e diversidade
O Grupo Carrefour Brasil tem se destacado pela transparência na divulgação de suas metas executivas. A companhia foi uma das pioneiras no setor a incluir explicitamente indicadores de diversidade racial e metas de redução de emissões de gases de efeito estufa no cálculo do bônus da diretoria. Essa prática envia um sinal claro ao mercado: a liderança é avaliada pela sua capacidade de gerar lucro com propósito. O conselho do Carrefour utiliza comitês especializados para auditar esses indicadores, garantindo que a avaliação não seja apenas um exercício de "greenwashing", mas uma aferição real de impacto.
Magazine Luiza: Transparência em tempos de crise
O caso do Magazine Luiza oferece uma lição valiosa sobre a importância da supervisão e da avaliação contínua. Em 2023, a revelação de "incorreções contábeis" relacionadas a bonificações de fornecedores abalou a confiança do mercado. No entanto, a reação da governança foi um exemplo de maturidade. O conselho, através de seus comitês de auditoria e riscos, conduziu uma investigação profunda e transparente. A avaliação da diretoria, nesse contexto, passou por um escrutínio rigoroso sobre os processos de controle interno. A empresa não apenas corrigiu os números, mas reforçou seus rituais de governança, demonstrando que um conselho atento é capaz de identificar falhas, assumir responsabilidades e ajustar a rota sem comprometer a essência da marca.
Americanas: O contraexemplo e o alerta
Por outro lado, o caso da Americanas serve como um alerta sombrio sobre o que acontece quando a avaliação do CEO e da diretoria falha ou é superficial. A descoberta de uma fraude bilionária revelou um abismo entre o que era reportado ao conselho e a realidade da operação. Faltou, possivelmente, o "confronto respeitoso" e a investigação profunda de indicadores que pareciam "bons demais para ser verdade".
Este episódio reforça a tese de que a confiança no CEO nunca deve substituir a verificação independente e a análise crítica de dados. A lição para todos os conselheiros é clara: a avaliação formal é a última linha de defesa contra o colapso ético e financeiro.
A avaliação da diretoria executiva (C-Level) além do CEO
Embora o CEO seja a face pública da gestão e o principal interlocutor do conselho, a avaliação formal não deve se limitar a ele. A diretoria executiva, composta por CFO (Diretor Financeiro), COO (Diretor de Operações), CHRO (Diretor de Recursos Humanos), entre outros, forma o motor que impulsiona a estratégia. Um conselho que avalia apenas o CEO e ignora o desempenho individual e coletivo de seus diretores está operando com uma visão parcial da organização.
A avaliação da diretoria executiva deve ser coordenada pelo CEO, mas supervisionada pelo conselho, especialmente através do Comitê de Gente & Gestão. Este processo garante que o "tom no topo" (tone at the top) seja consistente em toda a liderança. Quando um CFO é avaliado não apenas pela precisão dos números, mas também pela sua capacidade de ser um parceiro estratégico do negócio, ou quando um CHRO é cobrado pela evolução do capital humano, a empresa cria uma cultura de alta performance e responsabilidade compartilhada.
Cargo C-Level | Foco da Avaliação pelo Conselho | Indicadores de Sucesso |
CFO (Financeiro) | Rigor nos controles, Gestão de riscos, Estrutura de capital | Precisão de forecasts, Custo de capital, Eficiência tributária. |
COO (Operações) | Eficiência da cadeia, Inovação em processos, Qualidade | Redução de perdas, Lead time, NPS (Net Promoter Score). |
CHRO (Gente) | Cultura, Sucessão, Engajamento, Diversidade | Turnover de talentos-chave, Índice de prontidão sucessória. |
CTO/CDO (Tecnologia) | Transformação digital, Cibersegurança, Dados | Disponibilidade de sistemas, ROI de projetos de TI. |
Luiz Marcatti, consultor de governança e professor do IBGC ( foi meu orientador na 45º turma do Curso de Governança Corporativa em Empresas Familiares pelo IBGC), reforça que a avaliação da diretoria deve considerar o impacto de cada executivo sobre o propósito da organização. Em setores como o varejo, onde a operação é intensiva em pessoas e processos, a coesão da diretoria executiva é o que permite que a empresa se adapte rapidamente a mudanças de consumo. Um conselho que monitora a dinâmica dessa equipe está, na prática, mitigando riscos de sucessão e garantindo que a empresa não dependa exclusivamente de uma única figura carismática.
Aprofundando as lições do varejo seu papel da logística e do atendimento
Para enriquecer ainda mais a análise do varejo nacional, é fundamental observar como a avaliação da diretoria tem se voltado para a eficiência logística e a experiência do cliente.
No setor supermercadista, a margem de lucro é frequentemente decidida nos detalhes da cadeia de suprimentos. Portanto, o conselho deve cobrar da diretoria executiva metas rigorosas de redução de perdas e otimização de estoques.
Empresas como o Assaí Atacadista, que se desmembrou do GPA para focar em um modelo de alta eficiência, mostram como a especialização da diretoria e a avaliação focada em métricas de volume e produtividade podem gerar valor exponencial. O conselho do Assaí monitora de perto a execução do plano de expansão, avaliando a diretoria pela sua capacidade de abrir novas lojas dentro do prazo e do orçamento, mantendo a rentabilidade por metro quadrado.
Outro exemplo relevante é o da Raia Drogasil (RD), que embora atue no varejo farmacêutico, compartilha muitas dinâmicas com o setor supermercadista. A RD é frequentemente citada como um exemplo de governança de excelência. Seu conselho avalia a diretoria pela capacidade de integrar o varejo físico com o digital (omnichannel), transformando as farmácias em centros de saúde e bem-estar.
A avaliação aqui é profundamente humanizada, focando na qualidade do atendimento e na fidelização do cliente, o que se traduz em resultados financeiros consistentes e de longo prazo.
O desafio da sucessão executiva e a continuidade do legado
Um dos produtos mais importantes de uma avaliação formal bem feita é o plano de sucessão. Richard Doern, conselheiro com vasta experiência em empresas familiares de longa tradição, observa que a avaliação do CEO deve incluir, obrigatoriamente, a sua capacidade de preparar sucessores. Um CEO que não desenvolve sua equipe e se torna "indispensável" é, na verdade, um risco para a perenidade da empresa.
O conselho deve perguntar: "Se o CEO sair amanhã, temos alguém pronto para assumir interinamente? E em dois anos, teremos sucessores internos preparados?". A avaliação da diretoria executiva serve para identificar esses talentos. Ao monitorar o desempenho dos diretores ao longo do tempo, o conselho cria um "banco de reservas" qualificado, reduzindo a necessidade de buscas externas custosas e arriscadas em momentos de transição.
Em empresas centenárias, a sucessão é tratada como um processo natural e contínuo, não como uma crise. A avaliação formal garante que o legado da marca e os valores da família ou dos fundadores sejam preservados, enquanto a gestão se renova para enfrentar os desafios de cada nova era. É o equilíbrio perfeito entre tradição e inovação, sustentado por uma governança que não teme avaliar e ser avaliada.
O ritual do feedback e o desenvolvimento contínuo
A avaliação formal do CEO e da diretoria executiva não deve ser vista como um evento isolado no calendário corporativo, mas sim como o ápice de um ciclo contínuo de feedback e aprendizado. Henrique Luz, ex-presidente do IBGC e uma das vozes mais respeitadas na governança brasileira, enfatiza que o feedback estruturado deve ser claro, específico e, acima de tudo, voltado para ações concretas.
Dizer a um CEO que ele precisa melhorar a comunicação é vago e pouco produtivo. Um conselho maduro diria: "O CEO deve apresentar um plano de comunicação estratégica com os acionistas minoritários e colaboradores até o final do próximo trimestre, com metas mensuráveis de engajamento e clareza de mensagens".
Essa abordagem transforma a avaliação em uma ferramenta de gestão poderosa. O feedback, quando bem conduzido, remove as "áreas cinzentas" da relação entre o conselho e a diretoria. Ele permite que o executivo compreenda exatamente o que se espera dele, não apenas em termos de resultados numéricos, mas também em comportamentos e atitudes.
Para que isso ocorra, o ritual de feedback deve ser preparado com antecedência. O presidente do conselho (Chairman) desempenha um papel fundamental aqui, atuando como o porta-voz do colegiado e garantindo que a mensagem entregue reflita o consenso do grupo, e não apenas opiniões individuais isoladas.
A avaliação 360° e a autoavaliação
Uma prática que tem ganhado força em conselhos de alta performance é a inclusão da autoavaliação do CEO e, em alguns casos, da avaliação 360°. Renato Bernhoeft, consultor especializado em empresas familiares, destaca que esse modelo é particularmente útil em organizações onde as dinâmicas de poder são complexas. Ao permitir que o CEO se autoavalie antes da reunião formal, o conselho abre espaço para uma reflexão honesta sobre desafios e conquistas. Quando essa visão é confrontada com a percepção dos conselheiros e, eventualmente, de seus subordinados diretos, o resultado é um diagnóstico muito mais rico e preciso.
Em empresas familiares, a avaliação 360° ajuda a mitigar conflitos entre acionistas da família e executivos profissionais. Ela traz objetividade para uma relação que, muitas vezes, é carregada de emoções e expectativas históricas. Ao dar voz a diferentes stakeholders, o conselho demonstra que a liderança é avaliada sob múltiplos prismas, fortalecendo a legitimidade do processo e a confiança mútua.
O ciclo de aprendizado coletivo
A avaliação do CEO também deve servir como um espelho para o próprio conselho. Aqui trago uma passagem pessoal como executivo onde tive uma experiência muito negativa onde o conselho mais atrapalhava do que orientava nas tomadas de decisões estratégicas da empresa e neste momento de profunda reflexão, me aprofundei nos estudos sobre governança e o real papel do conselho como "parceiro critico mas, orientador do CEO".
Se o executivo não está performando conforme o esperado, cabe ao colegiado perguntar: "Nós demos as diretrizes corretas?", "O suporte oferecido foi adequado?", "Nossas metas eram realistas diante do cenário macroeconômico?".
Esse ciclo de aprendizado coletivo é o que permite que a governança evolua. Um conselho que avalia seu CEO, mas não se autoavalia, corre o risco de se tornar arrogante e desconectado da realidade operacional. A humildade intelectual de ambas as partes é o combustível para a melhoria contínua.
Erros comuns e como evita-los no processo de avaliação
Apesar da abundância de boas práticas, muitos conselhos ainda cometem erros básicos que comprometem a eficácia da avaliação e, por extensão, a saúde da empresa. Identificar esses deslizes é o primeiro passo para corrigi-los.
1. Falta de critérios claros e objetivos
Avaliar um CEO com base em "percepções vagas" ou no seu "carisma" é um convite ao desastre. Sem metas pré-acordadas (eu chamo de alinhamento das expectativas) no início do exercício, a avaliação torna-se subjetiva e facilmente politizada. Isso é especialmente perigoso em momentos de crise, onde a busca por culpados pode obscurecer a análise técnica do desempenho. O uso de um plano de performance, como mencionado anteriormente, é a vacina contra esse mal.
2. Avaliação esporádica ou punitiva
Limitar o feedback a uma única reunião anual transforma o momento em um evento de alta ansiedade e, muitas vezes, punitivo. O ideal é que existam "checkpoints" ao longo do ano.
Reuniões trimestrais de acompanhamento de metas permitem ajustes de curso em tempo real. Se o conselho espera até o final do ano para dizer ao CEO que ele está no caminho errado, o prejuízo para a organização já pode ser irreversível.
3. Confusão entre confiança vs. conforto
Este seja, talvez, o erro mais comum e perigoso. Muitos conselheiros confundem "ter confiança" no CEO com "não desafiar" o CEO. Cria-se um ambiente de conforto onde o colegiado evita perguntas difíceis para não "desgastar a relação". No entanto, a verdadeira confiança é construída através do debate franco e do confronto de ideias. Um conselho que não desafia seu executivo está, na verdade, falhando em protegê-lo de seus próprios pontos cegos.
4. O peso excessivo do curto prazo
Como vimos nos exemplos do varejo, principalmente no segmento supermercadistas onde o dia-a-dia operacional tem um peso muito grande, o foco exclusivo no resultado de curto prazo pode incentivar comportamentos de risco ou a negligência com ativos intangíveis, como a marca e a cultura. A avaliação deve sempre ponderar o "como" os resultados foram alcançados.
Um lucro recorde obtido através do corte indiscriminado de investimentos em inovação, promoções mal planejadas sem margens para a empresa ou da degradação do clima organizacional é uma “Vitória de Pirro” (expresão utilizada para descrever um triunfo obtido a um custo muito elevado, que equivale a uma derrota) que o conselho não deve permitir.
O futuro da avaliação nos tempos da tecnologia, dados e humanização
Olhando para 2026 e além, a avaliação da diretoria executiva será cada vez mais apoiada por dados e tecnologia, mas sem perder o toque humano.
O uso de inteligência artificial para analisar grandes volumes de dados operacionais e de mercado permitirá que os conselhos tenham uma visão em tempo real do desempenho da gestão. Dashboards de governança, integrados aos sistemas da empresa, fornecerão indicadores de conformidade, ESG e performance financeira de forma contínua.
No entanto, a tecnologia é apenas um meio. O fim continua sendo a sabedoria humana. O papel do conselheiro do futuro será o de interpretar esses dados sob a ótica da estratégia e da ética. A humanização do processo de avaliação significa reconhecer que, por trás de cada KPI, existe um líder lidando com pressões imensas, gerindo milhares de pessoas e navegando em um mundo de incertezas. O conselho que souber equilibrar a frieza dos números com a empatia da liderança será aquele que atrairá e reterá os melhores talentos para o topo da pirâmide organizacional.
O impacto direto na perenidade e na criação de valor
A avaliação formal do CEO e da diretoria executiva é muito mais do que um item em um checklist de governança.
Ela é a expressão máxima da responsabilidade do conselho de administração ou consultivo perante os acionistas, colaboradores, clientes e a sociedade em geral. Ao longo deste artigo, procurei alertá-los que um processo bem estruturado — baseado em critérios objetivos, metas equilibradas entre o financeiro e o ESG, e um ritual de feedback honesto — é capaz de transformar a cultura de uma empresa e garantir sua longevidade.
Os exemplos do varejo nacional, como GPA, Carrefour e Magazine Luiza, mostram que a governança é um caminho de aprendizado constante não somente para os grandes varejistas, mas também para as empresas familiares. Acertos trazem valor e reputação; erros, quando encarados com transparência, trazem lições que fortalecem a estrutura para o futuro.
“O papel do conselheiro, portanto, é o de ser um guardião vigilante, mas também um mentor inspirador”.
Em última análise, a perenidade de uma organização não depende apenas de seus ativos físicos ou de sua tecnologia, mas da qualidade de sua liderança e da integridade de sua supervisão. Um conselho que avalia com rigor técnico e sensibilidade humana não está apenas cumprindo seu dever fiduciário; está construindo um legado de confiança e valor que perdurará por gerações. A avaliação do CEO é, em essência, o compromisso da empresa com a sua própria excelência e com o futuro que ela deseja construir.
Reflexões finais sobre a governança humanizada
Ao final deste artigo, espero ter alertado como ponto de reflexão aos Chairmans que a avaliação formal do CEO e da diretoria executiva é um ato de coragem e de cuidado. É corajoso porque exige o confronto com a realidade, a exposição de falhas e a cobrança de resultados. É cuidadoso porque, quando feito de forma humanizada, protege o profissional, valoriza o talento e garante que a empresa continue sendo um lugar de crescimento e propósito.
A governança não é um fim em si mesma, mas um meio para que as organizações cumpram sua função social de gerar riqueza, empregos e soluções para a sociedade. Um conselho que leva a sério a avaliação de sua liderança está, em última instância, honrando o compromisso com todos os seus stakeholders.
Que este artigo sirva como um guia para conselheiros, executivos e estudantes de governança que buscam elevar o padrão de gestão em nas empresas, tornando-as mais resilientes, éticas e perenes.
Fique bem e até o próximo artigo, no qual abordarei o tema: “Evolução: Do Conselho Consultivo ao de Administração ”
#ClilsonFilippetti #CLConsultoriaComercial #GovernançaCorporativa #ConselheiroConsultivo #ConsultoriaComercial #LiderançaExecutiva #ConselhoDeAdministração #ConselhoConsultivo #ESG #VarejoNacional #AvaliaçãoDeDesempenho #GestãoEstratégica #Sucessão #CLevel #CulturaOrganizacional #IBGC #ESG #VarejoAlimentar #WanderleiPassarella #CarlosAlbertoJulio #SandraGuerra #LuizMarcatti #RichardDoern #HenriqueLuz #RenatoBernhoeft #GPA #Assai #Carrefour #MagazineLuiza #DrogaRaia




Comments