A Revolução da Praticidade
- Clilson Filippetti

- Dec 23, 2025
- 5 min read
Como o setor supermercadista deverá liderar com a “Era do Pronto"
O setor supermercadista global está imerso em uma transformação acelerada, impulsionada pela demanda incessante do consumidor por conveniência, agilidade e soluções imediatas para o dia a dia. Este movimento não é apenas uma tendência passageira, mas uma redefinição fundamental do papel do supermercado na vida moderna.
Um dos vetores mais evidentes dessa mudança é a ascensão de formatos de loja compactos e ultraconvenientes, focados no conceito “Take it and go” — pegue e leve. A minha experiência ao visitar a loja do Trader Joe's Pronto, em Nova York, oferece um estudo de caso valioso sobre os desafios e as oportunidades dessa tendência. Embora baseada em um modelo estrangeiro, suas lições ressoam profundamente no contexto do varejo alimentar brasileiro, que já demonstra um modelo em fase de crescimento.
O conceito por trás do Trader Joe's Pronto é a máxima eficiência: “Take it fast” — pegue e leve rápido —, com foco em uma experiência de compra sem atritos e um checkout quase instantâneo. A loja, localizada estrategicamente em Nova York, ao lado de uma unidade tradicional e próxima a um concorrente de peso como o Wegmans, foi concebida para atender à demanda por refeições prontas. Seu mix de produtos é intencionalmente reduzido, oferecendo wraps, sanduíches, saladas e sucos, todos a preços acessíveis, visando eliminar as longas filas do supermercado convencional.
No entanto, minha observação inicial in loco levanta um questionamento crucial. Em uma tarde chuvosa tradicional do inverno nova-iorquino, a loja apresentava um movimento tímido, com caixas parados. Isso sugere que, apesar da proposta de valor clara, a execução ou o momento de mercado podem não ter se alinhado perfeitamente. O formato “Pronto” exige um fluxo constante de clientes apressados, e a baixa adesão inicial pode indicar a necessidade de ajustes no sortimento, na comunicação ou na localização exata para capturar o público-alvo de forma eficaz.
Conveniência e refeições prontas estão em ascensão no mercado brasileiro?
No Brasil, a tendência de conveniência e o mercado de “Ready-to-Eat” — refeições prontas — estão em plena expansão. O consumidor brasileiro, especialmente nos grandes centros urbanos, valoriza cada vez mais a praticidade para economizar tempo na cozinha.
Grandes players nacionais já estão investindo pesadamente nesse segmento, transformando as seções de perecíveis e rotisseria em verdadeiros centros de soluções alimentares.
Aqui, alguns dados do varejo nacional:
Pão de Açúcar Minuto (GPA) teve um crescimento de 10% na categoria, com sortimento amplo e foco em agilidade.
As lojas da Swift (JBS) oferecem uma ampla linha de pratos prontos e semiprontos, facilitando o preparo diário.
As lojas de Cash&Carry estão se adaptando a um formato menor do tradicional, buscando maior proximidade com o cliente.
Estes exemplos mostram que a conveniência não é um nicho, mas uma estratégia transversal que afeta desde o supermercado tradicional até o atacarejo. O foco é claro: reduzir a jornada de compra e oferecer produtos que resolvam a necessidade imediata do cliente.
O formato compacto: uma resposta à urbanização
A busca por formatos de loja menores e mais ágeis não se restringe apenas ao nicho de refeições prontas. A multiplicidade de formatos é uma das principais tendências do varejo alimentar brasileiro.
O caso do Cometa Express. Com apenas 340 metros quadrados de área de venda, a primeira unidade compacta da rede Cometa Supermercados, em Fortaleza (CE), inaugurada no bairro Montese, ilustra a adaptação do varejo tradicional ao modelo de proximidade. Inspirado em redes internacionais, o Cometa Express foca em conveniência, provando que pequenos espaços podem gerar grandes resultados ao otimizar a experiência de compra para o consumidor que busca rapidez.
O caso do Brasil Atacadista, modelo de loja Cash&Carry que tradicionalmente opera em grandes áreas, também está evoluindo. O Brasil Atacadista investiu no conceito de loja compacta para o Cash&Carry em Santa Catarina, buscando maior proximidade com o cliente e capilaridade. Inaugurada a primeira loja da bandeira no formato compacto, com 1.500 metros quadrados de área de vendas, oferece mais de 10 mil itens aos seus clientes.
Lições essenciais para o supermercadista brasileiro
A análise da tendência internacional e dos movimentos nacionais oferece insights valiosos para os gestores de supermercados que desejam liderar a era do "Pronto":
1. Ajuste fino do mix e regionalização da oferta
O sucesso de um formato “Pronto” ou de uma seção de refeições prontas depende de um mix de produtos perfeitamente calibrado para a demanda local e os horários de pico. No Brasil, isso significa ir além do básico e incluir:
1.1 Pratos regionais e comfort food: o consumidor busca o sabor caseiro e regional. Oferecer pratos típicos da região (como feijoada, baião de dois ou pratos sazonais) aumenta a conexão emocional e a aceitação.
1.2 Curadoria inteligente: o sortimento deve ser enxuto, mas relevante. A tecnologia de análise de dados (Big Data) é fundamental para identificar os itens de maior giro e eliminar a “fricção da escolha”.
2. Fricção zero no checkout
A promessa de rapidez deve ser cumprida a todo custo. A lentidão no caixa anula todo o benefício da conveniência. O investimento em tecnologia de checkout não é um custo, mas um imperativo estratégico:
2.1 Self-checkout otimizado: sistemas intuitivos e com suporte ágil para evitar frustrações.
2.2 Pagamento por aproximação (NFC/QR Code): redução do tempo de transação.
2.3 Tecnologia Just-Walk-Out: embora ainda em fase inicial no Brasil, o monitoramento de câmeras e sensores para permitir que o cliente simplesmente saia da loja após a compra (como no modelo Amazon Go) é o futuro da agilidade.
3. Localização e sinergia estratégica
A escolha do ponto comercial para formatos compactos é decisiva. A proximidade com lojas tradicionais pode ser uma estratégia de sinergia (como no caso do Trader Joe’s Pronto), mas o formato compacto deve ter uma proposta de valor clara e independente.
3.1 Foco em alto tráfego: áreas próximas a escritórios, terminais de transporte e grandes condomínios residenciais são ideais para capturar o cliente na jornada de ida e volta do trabalho.
3.2 Operação 24/7: a conveniência máxima muitas vezes exige horários de funcionamento estendidos — ou até mesmo 24 horas — especialmente em grandes capitais.
4. Integração com o digital e Last Mile
A conveniência moderna transcende a loja física. O supermercado deve integrar a oferta de refeições prontas com canais digitais.
4.1 Pronta entrega (delivery): oferecer a mesma qualidade e agilidade das refeições prontas via aplicativos de entrega, garantindo que o cliente receba o produto em minutos.
4.2 Retirada na loja (Click & Collect): permitir que o cliente encomende a refeição no caminho para casa e apenas retire na loja, sem precisar entrar e circular.
O varejo alimentar brasileiro está maduro para absorver e expandir as soluções de alimentação prática?
Não basta apenas reagir à demanda; é preciso antecipá-la, usando a tecnologia para definir a oferta e garantir que a experiência de compra seja tão rápida e satisfatória quanto a refeição que o cliente leva para casa. O futuro do supermercado passa, inevitavelmente, por ser o destino preferencial para quem busca a solução alimentar do dia — e não apenas a matéria-prima. O desafio está lançado: transformar a conveniência em um diferencial competitivo sustentável.
Supermercado como solucionador de problemas
“O desafio para o supermercadista não é apenas reagir à demanda, mas antecipá-la.”
O futuro do supermercado passa, inevitavelmente, por ser o destino preferencial para quem busca a solução alimentar do dia, e não apenas a matéria-prima para cozinhar. Isso exige uma mudança de mindset: de vendedor de produtos para solucionador de problemas.
A tecnologia — desde a análise de dados para refinar o sortimento até os sistemas de checkout de fricção zero — é a ferramenta que garantirá que a experiência de compra seja tão rápida e satisfatória quanto a refeição que o cliente leva para casa. O desafio está lançado: transformar a conveniência em um diferencial competitivo sustentável que garanta a liderança na próxima década do varejo.

















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