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John Furner: a estratégia para manter o Walmart como líder global do varejo

  • Writer: Clilson Filippetti
    Clilson Filippetti
  • Jan 12
  • 6 min read


Neste mês de janeiro de 2026, meus artigos estarão focados nas estratégias que os CEOs das grandes empresas varejistas apresentarão na NRF 2026: Retail’s Big Show. E há um claro ponto de inflexão para o Walmart.John Furner, atual Presidente e CEO do Walmart U.S., assumirá o cargo de Presidente e CEO global em 1º de fevereiro de 2026, sucedendo a gestão de Doug McMillon.


O legado de McMillon


Doug McMillon, CEO por quase 12 anos, dobrou a receita global e transformou o Walmart em um gigante de tecnologia. Ele deixa o posto aos 59 anos e atuará como conselheiro até 2027.


Em sua gestão à frente do maior varejista global, McMillon priorizou as pessoas em primeiro lugar, contando com a colaboração de 2,1 milhões de associados para reduzir custos e gerar ideias coletivas. Inspirado em Sam Walton, defendia que:Coloque pessoas antes da tecnologia para criar impacto sustentável. Pessoas são os motores da inovação.”


Para contextualizar, vale observar os últimos cinco anos, de 2021 a 2026, período em que o Walmart apresentou crescimento robusto nos EUA. As mudanças e desafios enfrentados nesse intervalo incluíram a entrada tardia no e-commerce, o acúmulo de estoques no pós-pandemia em 2022 — que pressionou margens — e as tarifas comerciais de 2025, que criaram incertezas no mercado americano.


Fora dos EUA, o Walmart vendeu ou encerrou operações em mercados como Reino Unido, Japão, África e Argentina, concentrando esforços em regiões mais rentáveis, como México, Canadá e China. Essa consolidação reduziu perdas, mas limitou a expansão global em favor da eficiência doméstica.


Apesar dos percalços, o Walmart investiu fortemente em IA nos últimos anos, acelerando o e-commerce, que cresceu mais de 20% ao ano. A gestão de McMillon estabeleceu a omnicanalidade como um imperativo operacional, promovendo a sinergia entre lojas físicas, canais digitais e supply chain para entregar uma experiência de consumo fluida e sem atrito.


O crescimento nos EUA foi impulsionado pela aceleração do e-commerce e pela automação, transformando as lojas físicas em hubs de fulfillment (centros de atendimento) e consolidando plataformas estratégicas como o Walmart+ (programa de assinatura) e a Luminate (plataforma de análise de dados), esta última focada em data analytics e com expansão global iniciada em 2024.


O Walmart também investiu pesadamente em robótica, dobrando a produtividade nos centros de distribuição. Como consequência, suas vendas nos EUA atingiram patamares recordes.


A estratégia de Adaptive Retail impulsionada por IA


A Inteligência Artificial (IA) constitui o pilar central da estratégia de Adaptive Retail (Varejo Adaptativo). O investimento em modelos proprietários de IA generativa, agentes autônomos e parcerias estratégicas visa à otimização da eficiência operacional e ao upskilling — processo de aprimoramento e expansão de habilidades para elevar o desempenho do capital humano.


O núcleo tecnológico reside no Wallaby, uma série de Large Language Models (LLMs) treinados com um dataset proprietário do varejo, que sustenta respostas contextuais e hiperpersonalizadas. A otimização de processos é orquestrada por super agents especializados, como o Marty, agente parceiro na gestão de cadastros e campanhas de fornecedores e anunciantes, e o Sparky, agente de compras virtual que aprimora a product discovery no aplicativo.


Em seu livro Transformação Digital, David L. Rogers cita que o Walmart descobriu que 12% das vendas on-line eram originadas de clientes que compravam no walmart.com enquanto percorriam os corredores das lojas físicas.


Internamente, a Inteligência Artificial Generativa (GenAI) aplicada aos associados gerencia fluxos de trabalho, fornece instruções step by step e facilita traduções em 44 idiomas, gerando ganhos expressivos de eficiência — como a redução do lead time de planejamento de turnos de 90 para 30 minutos. A plataforma Element assegura a escalabilidade e a segurança dessas ferramentas para 1,5 milhão de associados.


A infraestrutura de dados omnichannel é tratada como um ativo estratégico, alimentando o Wallaby e otimizando o estoque por meio de RFID (Radio-Frequency Identification) e Realidade Aumentada (AR). Essa arquitetura permite que a IA acelere entregas e reduza ciclos de produção, reforçando a primazia do dado na gestão preditiva.


Adoção da tecnologia no varejo brasileiro


A reconfiguração do varejo pela IA transcende fronteiras e encontra convergência estratégica em grandes players do mercado brasileiro, que replicam a ênfase em supply chain, personalização e eficiência operacional.


O Grupo Carrefour Brasil exemplifica essa adoção ao integrar IA e visão computacional para aprimorar a gestão de estoques e a prevenção de perdas. Algoritmos preditivos ajustam automaticamente os pedidos com base no purchase history (histórico de compras) e no comportamento do consumidor, mitigando rupturas e desperdícios, especialmente em itens perecíveis. A aplicação de IA nas lojas, por meio da modelagem de índices de aglomeração e do rastreamento de fluxo em tempo real, otimiza a experiência do cliente.


O grupo conta ainda com a assistente virtual Carina, uma solução interna de GenAI que atua como virtual assistant para colaboradores, automatizando tarefas administrativas e gerando insights. A sinergia phygital é reforçada por funcionalidades como o Click & Retire, que permite comprar on-line e retirar o pedido em uma loja física ou ponto de retirada, sem custo de frete, evitando filas e com opções de retirada rápida ou agendada.


Já o Grupo Pão de Açúcar (GPA) posiciona a IA como um vetor logístico e de personalização, migrando sua infraestrutura para o Google Cloud. Em parceria com empresas de tecnologia, o GPA implementou soluções com o Vertex AI, incluindo os modelos Gemini 1.0 Flash, Vertex AI Datastore e APIs de Embeddings. O objetivo é aprimorar as soluções de IA do grupo, elevando a previsão de demanda em seus diversos formatos de loja, otimizando o nível de estoque e os roteiros de abastecimento.


O uso de Big Data e IA permite uma análise comportamental aprofundada, essencial para a hiperpersonalização de ofertas e a redefinição da Customer Experience (CX),

especialmente no segmento premium.


A visão de Furner e seus desafios


John Furner ocupa atualmente o cargo de Presidente e CEO do Walmart U.S., liderando as operações nos Estados Unidos desde 2019. Em fevereiro de 2026, a partir de 1º de fevereiro, assumirá o posto de CEO global do Walmart, sucedendo McMillon, que se aposentará após quase 12 anos no comando.


Furner ingressou no Walmart em 1993 como funcionário horista e evoluiu por cargos em merchandising, operações e no Sam’s Club. Sua liderança nos EUA acelerou a digitalização e o engajamento dos associados, preparando-o para a era da IA.


Apesar de sua visão tech-first, Furner enfrentou desafios, como a reestruturação internacional e o atraso na implementação do e-commerce. Sua estratégia, no entanto, está delineada em diretrizes focadas na execução em escala da inovação tecnológica. Entre elas:


  1. Priorização da IA em operações: investimento maciço em IA para supply chain, automação (parceria com a Symbotic para 400 centros de distribuição) e precisão de estoque via sensores (Physics AI), visando à redução de overhead e à maximização da disponibilidade.


  2. Expansão do footprint físico modernizado: abertura de mais de 150 supercenters até 2029, com design atualizado, integração de QR Codes e sinalização digital, reforçando a omnicanalidade.


  3. Aceleração de agentes de IA: transição de assistentes para agentes autônomos em funções operacionais, padronizando plataformas como o Wallaby em escala global.


  4. Simplificação de produtos e experiência: foco em ingredientes acessíveis e no engajamento dos associados com ferramentas de IA para maior agilidade e inovação.


A estratégia de Furner enfatiza a adoção precoce da IA como um remodelador total do varejo, em colaboração com parceiros como a NVIDIA, para otimizar a cadeia de suprimentos e as projeções preditivas.


Uma dica: o tema central de seu keynote na NRF 2026 será “AI Platform Shift”, no qual Furner apresentou sua visão sobre a transição estratégica da IA — de ferramentas pontuais e isoladas para uma plataforma unificada e escalável, integrando modelos proprietários, agentes autônomos e infraestrutura compartilhada em todo o ecossistema do varejo.


A transição de liderança no Walmart ocorre, portanto, em um momento decisivo para o varejo global, "quando a Inteligência Artificial deixa de ser suporte e passa a ocupar o centro da estratégia de Adaptive Retail ".


A visão tech-first de John Furner surge como evolução do legado de McMillon, agora orientada pela execução em escala. Ao incorporar os aprendizados dos últimos anos, o Walmart se posiciona para liderar a próxima fase do varejo, na qual agilidade, personalização e eficiência impulsionadas por IA se tornam essenciais.


Resta observar como essa estratégia se materializará a partir da NRF 2026 e nos resultados que seguirão em 2027.


Fique bem e até o próximo artigo!


 

 
 
 

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