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Os 8 Ps da Governança: Um framework abrangente

  • Writer: Clilson Filippetti
    Clilson Filippetti
  • Feb 23
  • 10 min read

Nos artigos anteriores desta jornada, abordamos diversos temas, contextualizando a importância da Governança Corporativa para o setor de varejo, segmento no qual atuo há mais de 30 anos. Esta jornada foi cuidadosamente elaborada para fornecer um roteiro prático e teórico para a implementação de um sistema de governança em empresas. O conteúdo está solidamente embasado em estudos, tendo como base teórica o IBGC - Instituto Brasileiro de Governança Corporativa  e  CELINT -  Centro de Estudos em Liderança e Governança, além de ser enriquecido com exemplos práticos de sucessos e insucessos de empresas nacionais e internacionais, cuidadosamente analisados.


Ao mergulhar no tema Governança, demonstra-se como a adoção de suas práticas marca uma transição essencial de uma “gestão informal” para uma “gestão profissionalizada”, sendo decisiva para a sobrevivência e a longevidade das empresas, especialmente as familiares do varejo alimentar. A governança funciona como um verdadeiro escudo protetor, blindando as organizações contra a centralização de poder e a falta de transparência.


É impossível abordar Governança sem destacar a importância da Cultura das empresas. A governança assinala a transição da gestão intuitiva para a gestão profissional, um passo primordial para a sobrevivência das organizações. Empresas que mantêm uma cultura baseada em bons princípios, aliada a boas práticas de governança, moldam comportamentos éticos, tanto interna quanto externamente.


Jim Collins descreve o ciclo de vida das organizações e destaca que “o sucesso sustentável exige foco nas pessoas certas, inseridas em uma cultura de excelência, na qual a cultura deve estar no centro de qualquer estratégia de crescimento de longo prazo”. A cultura não é apenas declarada; ela é vivida e transmitida diariamente dentro das empresas.


Apresentamos exemplos marcantes, tanto positivos, como Montblanc, Wegmans, Grupo Koch e Casa Santa Luzia, quanto de falhas, como o caso do Grupo Mateus, para ilustrar o impacto direto da governança e da cultura no valor e na credibilidade das empresas. Esses exemplos estão embasados nos pilares da Governança Corporativa — integridade, transparência, equidade, accountability e sustentabilidade (ESG) — que são fundamentais para a perenidade das empresas, mostrando como se traduzem em ações concretas e resultados impactantes.


Destaca-se o conceito de Accountability, que vai além da simples prestação de informações, exigindo uma postura proativa de responsabilidade.


Exemplos inspiradores de empresas como Star Market, Target, Patagonia, Walmart, Whole Foods, Best Buy, Lojas Renner, GPA, Grupo Boticário, Carrefour, Ambev e Grupo Muffato foram mencionados.


Assuntos polêmicos, como Sucessão Familiar e a Separação de Papéis, também foram abordados, mostrando um ponto de atenção crucial: “90% das empresas no Brasil são familiares e, infelizmente, 75% delas fecham as portas após a transição para os herdeiros”.


A Governança Corporativa oferece ferramentas para mitigar parte dos conflitos. Para isso, detalharemos neste artigo os 8 Ps da Governança Corporativa, um framework que oferece uma visão abrangente e prática para a implementação da governança, especialmente em empresas familiares, que é o nosso foco.


Embora o IBGC se concentre nos quatro princípios básicos (Transparência, Equidade, Prestação de Contas e Responsabilidade Corporativa), os 8 Ps da Governança Corporativa detalham as dimensões críticas que precisam ser endereçadas para que esses princípios sejam efetivamente aplicados.


A versão mais comum dos 8 Ps da Governança Corporativa inclui: Propriedade, Princípios, Propósito, Papéis, Poder, Práticas, Pessoas e Perpetuidade. Este modelo força a família empresária a olhar para além da gestão do dia a dia e a endereçar questões cruciais que, se negligenciadas, podem comprometer a longevidade do negócio.


A importância dos 8 Ps da Governança Corporativa reside em sua função de diagnóstico e checklist. Eles oferecem uma estrutura para avaliar a maturidade da governança em diferentes áreas e priorizar as ações de melhoria. Para a empresa familiar, é um mapa que ajuda a navegar pelas complexidades da intersecção dos três círculos.


Wanderlei Passarella, ao descrever o trabalho do conselheiro, sugere que o profissional deve ter a capacidade de fazer um diagnóstico rápido e preciso da situação da empresa. Os 8 Ps da Governança Corporativa servem como uma ferramenta de diagnóstico para o conselheiro, permitindo-lhe identificar lacunas de governança e propor soluções específicas.


A Governança Corporativa é um sistema fundamental que orienta a maneira como as empresas são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre sócios, conselho de administração, diretoria, órgãos de fiscalização e controle e demais partes interessadas.


A metodologia dos 8 Ps da Governança Corporativa, desenvolvida pelos professores José Paschoal Rossetti e Adriana Solé, detalha em seu livro Governança Corporativa os princípios que, quando aplicados, podem minimizar riscos e aumentar a confiabilidade e o desempenho das organizações. Este documento explora os benefícios estratégicos que cada um desses 8 Ps proporciona às empresas.

 

Análise Detalhada dos 8 Ps da Governança Corporativa e Seus Benefícios


1. Propriedade

A Propriedade refere-se à estrutura e ao regime legal da constituição da empresa — capital misto, aberto, fechado, familiar etc. A clareza na definição da propriedade é crucial para a coesão entre os acionistas e para a determinação dos processos de sucessão. Uma estrutura de propriedade bem definida sinaliza ao mercado a situação e os objetivos da empresa, influenciando diretamente suas diretrizes de governança.


Benefícios para as empresas:

Estabilidade institucional: garante a continuidade da gestão e a transição suave de lideranças, minimizando incertezas.

Redução de conflitos: alinha os interesses dos sócios, prevenindo disputas e focando na criação de valor.

Credibilidade no mercado: transmite confiança a investidores e parceiros, facilitando o acesso a capital e novas oportunidades de negócio.

 

2. Princípios

Os Princípios constituem a base ética da empresa e de sua governança corporativa, pautados em quatro fundamentos: justiça e equidade de direitos, divulgação e transparência de resultados, prestação de contas responsável e conformidade com normas, leis e marcos regulatórios (compliance). A disseminação desses princípios internamente e sua aceitação externa são vitais para a reputação da organização.


Benefícios para as empresas:

Fortalecimento da reputação: constrói uma imagem sólida e confiável, atraindo e retendo clientes, talentos e investidores.

Redução do custo de capital: empresas com alta transparência e ética tendem a ser vistas como menos arriscadas, o que pode resultar em melhores condições de financiamento.

Cultura organizacional robusta: promove um ambiente de trabalho ético e responsável, aumentando o engajamento dos colaboradores.

 

3. Propósito

O Propósito envolve missão, visão e planos táticos da empresa. A definição clara desses elementos alinha as ações da organização aos seus objetivos de médio e longo prazo. É essencial que sejam consistentes, motivadores e realizáveis, com foco em retornos mensuráveis.


Benefícios para as empresas:

Direcionamento estratégico: garante que todas as decisões e alocações de recursos estejam alinhadas com os objetivos maiores da empresa.

Eficiência operacional: otimiza o uso de recursos, evitando desperdícios e focando em atividades que geram valor.

Motivação dos colaboradores: inspira a equipe ao conectar o trabalho diário a um propósito maior e significativo.

 

4. Papéis

A clara definição de papéis, atribuições e funções dentro da organização é fundamental para o sucesso da estratégia de governança corporativa. Isso inclui a distinção entre as responsabilidades do conselho de administração, diretoria executiva, proprietários, conselheiros e gestores.


Benefícios para as empresas:

Agilidade na tomada de decisão: evita a sobreposição de funções e conflitos de autoridade, permitindo decisões mais rápidas e eficazes.

Responsabilidade clara: cada indivíduo e órgão conhece exatamente suas atribuições, aumentando a prestação de contas.

Redução de conflitos internos: minimiza desentendimentos e atritos decorrentes de ambiguidades nas responsabilidades.

 

5. Poder

O poder dentro de uma organização deve ser exercido de forma ética e voltado para o benefício da empresa como um todo, e não para ganhos pessoais. É crucial diferenciar autoritarismo de autoridade e legitimar as lideranças. Decisões de alto impacto devem ser compartilhadas, e um planejamento de sucessão nos órgãos de decisão é essencial.


Benefícios para as empresas:

Legitimidade da liderança: fortalece a confiança na gestão e nas decisões tomadas.

Decisões equilibradas: a descentralização responsável e o compartilhamento de decisões importantes resultam em escolhas mais ponderadas e eficazes.

Ambiente de confiança: promove um clima organizacional em que a ética e a integridade são valorizadas.

 

6. Práticas

As Práticas referem-se às ações e aos processos internos da empresa, que devem ser guiados por um senso de humanidade, embasados em dados e integrados ao GRC — Governança, Riscos e Compliance. Isso garante que a estratégia seja unificada, transparente e em conformidade com dispositivos legais, minimizando riscos.


Benefícios para as empresas:

Eficiência operacional: processos bem definidos e baseados em dados otimizam as operações e reduzem gargalos.

Conformidade e mitigação de riscos: garante que a empresa esteja em conformidade com leis e regulamentações, protegendo-a contra sanções e perdas financeiras.

Melhoria contínua: a cultura de GRC incentiva a avaliação constante e o aprimoramento dos processos.

 

7. Pessoas

O foco nas Pessoas garante que a cultura de governança seja absorvida em todos os níveis da organização. Isso envolve o desenvolvimento de talentos, a qualidade da área de recursos humanos e a incorporação de rotinas de governança no dia a dia.É importante utilizar boas práticas de governança e uma cultura organizacional para desenvolver e revisar constantemente a qualidade do RH, tornando a instituição mais forte.


Benefícios para as empresas:

Retenção de talentos: atrai e mantém profissionais engajados que compartilham os valores éticos da empresa.

Cultura organizacional forte: promove um ambiente de trabalho positivo, no qual a ética e a responsabilidade são parte integrante do cotidiano.

Engajamento e produtividade: colaboradores que se sentem valorizados e alinhados com os propósitos da empresa tendem a ser mais produtivos e comprometidos.

 

8. Perpetuidade

A Perpetuidade é o objetivo final de manter a organização viva, atuante e com participação crescente na sociedade a longo prazo. Isso implica um planejamento sólido de curto, médio e longo prazo, com foco na criação de valor sustentável para todos os stakeholders.


Benefícios para as empresas:

Longevidade do negócio: garante a sustentabilidade da empresa ao longo do tempo, protegendo-a contra crises e desafios.

Criação de valor contínuo: foca na geração de valor para acionistas, colaboradores, clientes e a sociedade em geral.

Harmonia de propósitos: concilia os interesses dos diversos stakeholders, promovendo crescimento equilibrado e sustentável.

 

Comparativo: IBGC e os 8 Ps da Governança


Para ilustrar a relação entre os princípios do IBGC e os 8 Ps da Governança, apresentamos o seguinte quadro comparativo:


8Ps

Foco

Relação com o IBGC

Exemplo de Ação

Propriedade

Estrutura de capital, direitos dos sócios

Equidade e Transparência

Criação de um Acordo de Sócios detalhado.

Princípios

Ética, valores, Código de Conduta

Responsabilidade Corporativa

Implementação de um Canal de Denúncias e Comitê de Ética.

Propósito

Missão, visão, razão de ser

Responsabilidade Corporativa

Alinhamento da estratégia com os ODS (Agenda 2030).

Papéis

Autoridade, alçada de decisão

Prestação de Contas

Definição clara das atribuições do Conselho e da Diretoria.

Pessoas

RH, sucessão, meritocracia

Equidade

Implementação de uma Política de Sucessão baseada em competências.

Processos

Ciclo de gestão, planejamento, controles internos

Transparência e Prestação de Contas

Formalização do planejamento estratégico e orçamento.

Performance

Resultados, indicadores, metas

Prestação de Contas

Definição de KPIs e remuneração variável atrelada ao desempenho.

Perpetuidade

Longevidade, legado, transição

Responsabilidade Corporativa

Criação de um Conselho Consultivo para visão de longo prazo.

 

Exemplo Prático


Considere uma empresa familiar que percebe a estagnação da performance e a dificuldade do fundador em planejar a perpetuidade:


Diagnóstico (8 Ps): falhas nos Ps de Performance (falta de KPIs claros) e Perpetuidade (ausência de plano de sucessão).

Ação de governança (IBGC): o conselho exige a implementação de um sistema de prestação de contas que inclua relatórios mensais de desempenho e a criação de um plano de sucessão formal.

Ação do conselheiro (Passarella): o conselheiro sugere a contratação de um executivo não familiar para a área de performance e lidera a criação do plano de sucessão, garantindo que a nova geração seja preparada com base em competências (Pessoas), e não apenas em laços familiares. O framework dos 8 Ps orienta a intervenção de forma estruturada.

 

Empresas que Praticam os 8 Ps da Governança


Várias empresas brasileiras adotam práticas alinhadas aos 8 Ps da Governança Corporativa. Embora não haja uma lista oficial de certificação exclusiva por essa metodologia, seguem exemplos identificados em pesquisas.


Exemplos notáveis


Nestlé: reconhecida com o Prêmio Compliance Brasil em Segurança de Alimentos (2017), destacando transparência e responsabilidade corporativa.


Grupo Fleury: premiado duas vezes pelo IBGC por práticas de governança, enfatizando papéis claros, poder equilibrado e perenidade.

 

Empresas que Falharam por Ausência de Alguns dos 8 Ps


Americanas: fraudes contábeis revelaram manipulação financeira, levando a perdas bilionárias e pedido de recuperação judicial em 2023; a ausência de transparência e accountability foi crucial.


Enron: ocultação de dívidas via manobras contábeis resultou em falência em 2001, com perda de cerca de US$ 70 bilhões em valor de mercado.


OGX: promessas irrealistas de produção de petróleo sem adequada gestão de riscos ou transparência causaram dívidas bilionárias e colapso em 2013.


Esses escândalos revelam fragilidades em Propriedade (conflitos acionários), Princípios (falta de ética), Poder (concentração excessiva) e Práticas (ausência de controles), levando a perdas financeiras e reputacionais.

 

Empresas de Médio Porte no Varejo Alimentar:


Foram analisadas empresas brasileiras do varejo alimentar com faturamento entre R$ 1 bilhão e R$ 10 bilhões anuais, operando dezenas de lojas regionais: Grupo Bahamas, Savegnago Supermercados, Coop — Cooperativa de Consumo — e Giassi Supermercados.


Até a data de elaboração deste artigo, nenhuma delas menciona explicitamente a adoção formal da metodologia dos 8 Ps em fontes públicas disponíveis; porém, todas se destacam por não apresentarem queixas reputacionais relevantes por parte dos stakeholders.

 

Práticas observadas


Grupo Bahamas

Propriedade: controle familiar.

Papéis e Poder: possui conselho de administração estruturado, incluindo conselheiros externos.

Práticas: diretoria executiva com cargos como CEO e COO, separando estratégia e operação.

Forças: abertura a conselheiros independentes e profissionalização da gestão.


Savegnago Supermercados

Propriedade: empresa familiar de forte controle dos fundadores.

Papéis: conselho consultivo/administrativo ativo, com membros participantes de comitês da APAS.

Práticas: foco em RH e bem-estar dos colaboradores (Pessoas).

Forças: forte cultura organizacional e governança voltada à expansão sustentável.


Coop — Cooperativa de Consumo

Propriedade: coletiva (cooperados).

Princípios e Propósito: baseados nos valores cooperativistas de transparência e ajuda mútua.

Papéis e Poder: estrutura de conselho de administração e conselho fiscal eleitos em assembleia geral, com clara separação entre estratégia e gestão.

Forças: transparência e governança participativa.


Giassi Supermercados

Propriedade: empresa familiar.

Perpetuidade: foco intenso na sucessão familiar e continuidade do legado.

Papéis: diretoria executiva profissionalizada, com herdeiros em posições estratégicas.

Forças: equilíbrio entre valores familiares e gestão profissional com alta reputação regional.

 

A adoção dos 8 Ps da Governança Corporativa não é apenas uma questão de conformidade regulatória, mas uma estratégia competitiva que fortalece a empresa em múltiplos aspectos. Ao implementar esses princípios, as organizações podem construir uma base sólida para o crescimento sustentável, aumentar a confiança dos stakeholders, mitigar riscos e garantir sua longevidade no mercado.


Os benefícios se estendem desde a melhoria da reputação e a redução do custo de capital até a otimização da eficiência operacional e a criação de uma cultura organizacional robusta.

 

Fique bem e até o próximo artigo, onde trarei o tema: Conselho Consultivo: O primeiro passo seguro.

 

 

 

 
 
 

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