Mapeando a verdade dos números


A governança comercial que o supermercado precisa enxergar
Como Conselheiro Consultivo, minha primeira ação seria mapear a verdade dos números. No supermercado, faturamento elevado não significa, necessariamente, negócio saudável. Sem enxergar a margem líquida por categoria, o giro, as perdas e o custo real das promoções, qualquer decisão corre o risco de ser apenas um tiro no escuro.
A primeira pergunta é simples, mas incômoda, O que os seus dados estão tentando dizer que você ainda não quer ouvir? Talvez uma categoria venda muito e contribua pouco, talvez o desconto negociado com a indústria esteja sendo consumido por ruptura, excesso de estoque ou baixa execução na loja. O número que aparece no relatório é apenas o sintoma. A governança começa quando a empresa investiga a causa, define responsabilidades e transforma informação confiável em decisão.
Para um supermercadista, alguns indicadores merecem atenção permanente:
Indicador | O que revela na prática |
Margem líquida por categoria e SKU | Se o volume vendido realmente gera resultado após descontos, verbas, impostos e perdas. |
Sell-out e giro | Se o produto saiu para o consumidor ou apenas foi empurrado para o centro de distribuição. |
Ruptura e nível de serviço | Quanto de venda e confiança se perde quando o item não está disponível. |
Cobertura e estoque parado | Capital imobilizado, risco de vencimento e necessidade de revisão do mix. |
ROI promocional | Se a campanha aumentou consumo incremental ou apenas reduziu preço. |
Imagine um supermercado regional que identifica, por meio desses dados, que uma linha de massas tem boa participação nas vendas, mas margem líquida inferior à média da categoria. Em vez de simplesmente pressionar o fornecedor por mais desconto, o varejista pode compartilhar o diagnóstico com a indústria: revisar o sortimento, ajustar a exposição, planejar uma promoção baseada em sell-out e sincronizar o abastecimento.
A indústria, por sua vez, utiliza o S&OP para alinhar previsão de demanda, produção e logística. O resultado esperado é menos ruptura, melhor giro e uma negociação baseada em valor, não em disputa de preço.
Como descrevo em meu artigo para a revista SuperHiper/ABRAS — “A jornada da excelência comercial: como integrar Business Plan, S&OP, JBP e JVC ao varejo supermercadista”, o Business Plan estabelece propósito e viabilidade; o S&OP conecta vendas, operações, logística e finanças; o Joint Business Plan (JBP) transforma a relação entre indústria e supermercado em plano conjunto; e o Joint Value Creation (JVC) amplia a parceria para inovação e criação de valor compartilhado.
Há um exemplo real dessa evolução no Smart Market ABRAS 2025, reportado pela SuperHiper. Executivos do Assaí, da Mondelez Brasil e da Unilever destacaram que parcerias maduras dependem de governança, painéis de acompanhamento, revisão de KPIs, integração de dados e planejamento conjunto para evitar rupturas e aumentar o consumo da categoria — não apenas a participação de uma marca. Trata-se de uma aplicação concreta do princípio de que varejo e indústria prosperam quando compartilham responsabilidade pelo resultado final.
Por fim, mapear a verdade dos números é reconhecer que governança comercial não é burocracia: é disciplina para enxergar a margem real, enfrentar os desvios e alinhar decisões. Quando dados confiáveis orientam rituais de acompanhamento e colaboração entre supermercado e indústria, o sell-in deixa de ser um fim e passa a servir ao sell-out, ao consumidor e à sustentabilidade econômica de toda a cadeia.
Fique bem e até o próximo artigo.




Comments