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Não é sobre vender mais. É sobre permanecer relevante.

  • Writer: Clilson Filippetti
    Clilson Filippetti
  • May 27
  • 6 min read

O cenário do varejo em 2026 marca uma transição paradigmática: da transação para a relação. A busca incessante por escala, focada na quantidade, cede espaço à valorização do quem e do porquê por trás de cada interação. Este artigo explorará essa mudança, argumentando que o relacionamento, quando cultivado como um ativo estratégico, é o verdadeiro motor da longevidade empresarial, especialmente no dinâmico setor varejista.


A NRF 2026 e a ascensão do Human-Centric Retail


A NRF 2026 (Retail's Big Show) consolidou uma visão clara: a tecnologia, embora essencial, atingiu um platô de utilidade. A Inteligência Artificial Generativa e Preditiva já não é um diferencial por si só, mas sim a forma como é empregada para humanizar o contato com o cliente. O Human-Centric Retail emerge como uma nova necessidade, onde a eficiência tecnológica se une à empatia e à compreensão profunda das necessidades humanas. Essa abordagem ressalta que, sem um relacionamento sólido, a tecnologia corre o risco de automatizar a indiferença, em vez de otimizar a conexão.


Pilares da nova economia do varejo:


• Economia da Confiança (Trust Economy): Conforme destacado pela Harvard Business Review (2025) e nos fóruns da NRF, é o novo "petróleo". Contudo, a confiança é a "refinaria" que transforma esses dados em valor. Clientes só compartilharão informações valiosas se confiarem na marca, estabelecendo um ciclo virtuoso onde o relacionamento precede e potencializa a coleta e o uso de dados.

Comunidade antes de escala: O conceito de Community-Led Growth sugere que empresas duradouras constroem "tribos" leais antes de buscar uma expansão geográfica massiva. Essa estratégia fomenta um senso de pertencimento e advocacy, onde os próprios clientes se tornam embaixadores da marca, impulsionando um crescimento orgânico e sustentável.

• O Fim do CAC barato: Com o Custo de Aquisição de Clientes (CAC) em patamares recordes, o Customer Lifetime Value (CLV) tornou-se a métrica primordial para a sobrevivência e prosperidade. Um relacionamento robusto se traduz em retenção, e retenção é sinônimo de lucratividade a longo prazo, mitigando a dependência de aquisições custosas e insustentáveis.

 

Cases Internacionais: O relacionamento como vantagem competitiva


Empresas que elevam o relacionamento a um ativo de longo prazo frequentemente desfrutam de margens superiores e menor suscetibilidade a guerras de preços. Elas demonstram que a lealdade construída sobre valores e experiências autênticas é um baluarte contra a volatilidade do mercado.


Patagonia: Ativismo e transparência radical

A Patagonia transcende o papel de uma mera marca de vestuário outdoor; ela é um movimento. Sua estratégia foca no ativismo ambiental, priorizando a causa sobre o crescimento desenfreado. Essa postura gera uma lealdade quase religiosa entre seus consumidores, que se identificam com os valores da empresa. A transparência radical em suas práticas e a durabilidade de seus produtos reforçam a confiança, transformando cada compra em um ato de alinhamento com uma missão maior. O relacionamento aqui é forjado na partilha de um propósito, onde o cliente não compra apenas um produto, mas adere a uma filosofia.


Sephora: Ecossistema de comunidade e cocriação

A Sephora, com seu programa Beauty Insider, construiu um ecossistema vibrante onde a comunidade é o cerne de sua estratégia. Utilizando dados de relacionamento, a empresa cocria produtos com suas clientes, garantindo que a escala seja uma resposta à demanda genuína e não uma imposição de mercado. A Sephora fomenta um espaço de troca e aprendizado, onde as clientes se sentem ouvidas e valorizadas, transformando a experiência de compra em uma jornada colaborativa. A fidelidade é cultivada através do empoderamento e da participação ativa da comunidade.


Lululemon: Hub de bem-estar local e embaixadores da marca

Antes de expandir sua presença física com grandes lojas, a Lululemon investiu na construção de comunidades locais de bem-estar. Através de um programa de embaixadores, a marca fomenta instrutores de yoga e líderes fitness locais, que se tornam pontos de contato autênticos e orgânicos. Essa estratégia permite que a Lululemon construa relações profundas e significativas antes de escalar fisicamente, garantindo que cada nova loja seja recebida por uma comunidade já engajada e leal. O relacionamento é construído na base da confiança e da identificação com um estilo de vida saudável e ativo.


Cases Nacionais: O calor humano digitalizado no varejo brasileiro


O varejo brasileiro, com sua peculiaridade cultural, tem se destacado na arte de digitalizar o calor humano, transformando a tecnologia em um veículo para aprofundar as conexões.


Magazine Luiza (Magalu): Escala com alma e ecossistema de parceria

O Magalu é um exemplo notável de como conciliar escala com uma abordagem humanizada. Através da persona da "Lu", a empresa transformou o suporte ao cliente e as redes sociais em um ativo de relacionamento. Sua estratégia de digitalizar o varejo brasileiro vai além da venda direta, criando um ecossistema de parceria com pequenos vendedores (Magalu Entregas/Ads). Essa abordagem não apenas garante a longevidade do próprio Magalu, mas também de toda uma rede de empreendedores, fortalecendo laços e construindo uma comunidade de negócios interconectada.


Natura: Laços sociais e empoderamento por IA

A Natura, desde sua fundação, exemplifica a construção de relações antes da escala através de seu modelo de venda direta baseado em consultoras. Esses laços sociais são o pilar de sua operação. Em 2026, a empresa utiliza a inteligência artificial para empoderar suas consultoras com dados e insights, permitindo que elas mantenham a essência do relacionamento pessoal – o verdadeiro ativo estratégico – enquanto a empresa otimiza a escala logística. A tecnologia, neste caso, serve para amplificar a capacidade humana de conexão e não para substituí-la.


RaiaDrogasil (RD Saúde): De farmácia a hub de saúde personalizado

A transição da RaiaDrogasil de uma rede de farmácias para um hub de saúde é um testemunho do poder do relacionamento. Seu programa de fidelidade vai além dos descontos, focando na gestão de saúde personalizada. A RD Saúde compreende que uma relação de cuidado e acompanhamento gera uma recorrência e uma lealdade que a mera competição de preços não consegue sustentar. Ao se posicionar como parceira na jornada de saúde de seus clientes, a empresa constrói uma base sólida de confiança e engajamento.


Cases do varejo alimentar nacional: Construindo relações na gôndola


O varejo alimentar, muitas vezes percebido como um setor de alta commodity e baixa diferenciação, também tem demonstrado a importância do relacionamento para a longevidade e a preferência do consumidor.


Pão de Açúcar: Hiperpersonalização e experiência premium

Apesar do momento atual, não podemos deixar de citar o Pão de Açúcar que inspira muitos varejistas do segmento e a marca tem investido consistentemente na construção de uma relação premium com seus clientes, focando na hiperpersonalização da experiência de compra.


Através de seu programa de fidelidade, o "Pão de Açúcar Mais", a rede utiliza dados para entender profundamente o comportamento e as preferências de cada consumidor. Isso permite a oferta de promoções e conteúdos altamente relevantes, transformando a ida ao supermercado em uma experiência mais agradável e eficiente. A fidelização é alcançada não apenas pela qualidade dos produtos, mas pela sensação de ser compreendido e valorizado, reforçando a ideia de que o Pão de Açúcar oferece exatamente o que cada cliente procura. A evolução de campanhas como "Você feliz é tudo de pão" e a facilidade de alcançar diferentes níveis de fidelidade (Cliente Mais, Mais Gold e Mais Black) demonstram o compromisso da marca em aprofundar essa relação.


Grupo Zaffari: Tradição, proximidade e conexão comunitária

O Grupo Zaffari, com sua longa trajetória e forte presença no sul do Brasil, é um exemplo de empresa que construiu sua longevidade através de uma relação de proximidade e conexão com a comunidade. Embora não seja tão vocal quanto outras marcas em termos de programas de fidelidade digitais, a essência de sua estratégia reside na tradição, na qualidade dos produtos e no atendimento que remete a um varejo mais humano e familiar.


A marca Zaffari reflete valores como qualidade dos produtos comercializados (pioneiros em produtos MP Premium ), integridade, relacionamento e comprometimento, que são percebidos e valorizados por seus clientes ao longo das gerações. A empresa demonstra que, mesmo em um setor competitivo, a construção de uma reputação sólida e a manutenção de um vínculo genuíno com o público podem ser mais poderosos do que a busca desenfreada por escala.


Por que relacionamento com cliente, precede a escala?


No cenário atual do varejo, tentar escalar sem uma base sólida de relacionamento é análogo a tentar encher um balde furado. O marketing de performance, com seus custos crescentes de aquisição, tornou-se insustentável como única estratégia de crescimento. O que verdadeiramente sustenta um crescimento duradouro é a customer advocacy, impulsionada por experiências positivas e laços de confiança.


O termo customer advocacy (advocacia do cliente) refere-se a uma abordagem estratégica onde o foco central é a experiência, satisfação e defesa dos interesses do cliente, transformando-o em um promotor da marca.


O relacionamento, diferentemente de ativos tangíveis como estoque ou maquinário, não deprecia; ao contrário, ele gera "juros compostos" na forma de dados valiosos, indicações orgânicas e uma resiliência de marca inestimável em tempos de crise. É um capital intangível que se valoriza com o tempo e o cuidado, tornando-se o verdadeiro diferencial competitivo para a longevidade empresarial


Em um mundo onde a tecnologia avança a passos largos, a essência do varejo de excelência em 2026 reside na capacidade de humanizar essa tecnologia, transformando transações em relações significativas. As empresas que prosperam e perduram são aquelas que compreendem que a construção de laços autênticos com seus clientes, colaboradores e comunidades é o alicerce para qualquer escala sustentável.


A longevidade não é medida pelo volume de vendas, mas pela profundidade das conexões, no final das contas, o varejo que realmente importa não é sobre o que se vende, mas sobre quem se serve e como se faz sentir.

 

Fique bem e até o próximo artigo.



 
 
 

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